quinta-feira, 8 de setembro de 2016

CONFUSO

No chão colorido de guarda-chuvas abertos
Dançava a melodias dos pingos.
As nuvens, enfeitiçadas, com tanta leveza
Estancavam de susto.
O sol, aproveitando tamanho descuido,
Raiava com força e calor.
O dia arrastava-se na modorra da tarde.
Úmido e quente,
Sob os enfáticos aplausos da mudança de emoções.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ITAS

Excitas
Complicas
Irritas
A-fli-tas

Gritas
Orbitas
Fitas
Sus-ci-tas

Facilitas
Visitas
Benditas
A-cre-di-tas

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

SEPULTURA

Os segundos
Do olhar sustentado
Foram bastantes
Para incendiar o sonho.
Da dança calada 
Das visões que se entrelaçam
Surgiu o vento.
Entre chamas e faíscas
Encontra-se a certeza da dor.
Afastamento necessário
E não querido.
Realidade versus desejo.
Luta desigual que sepulta
Amantes em probabilidades
Mudas violentadas.

sábado, 2 de julho de 2016

VALE?

Se fosse possível,
Valeria a pena.
Sentir o sentimento sentido
Com novo gosto.
Viver novos focos e enfoques,
Pois nada se repete, tal e qual.
Se fosse possível,
Valeria a pena.
Tento?

domingo, 29 de maio de 2016

FIM

Com gosto de fim
Deixa o pano cair.
"Apaguem-se as luzes!" - ordena!
Encerrem-se todos os atos,
Todas as remontagens,
Todos as releituras.
Queimem-se os roteiros.
Fechem as portas
Incendeiem-se os teatros.
Fim, para sempre
Com toda atmosfera noir que merece.
Fim, para nunca mais.
Cansada. Foi. Fim.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

COMO ERA?

Há muito havia perdido 
Seu rosto para o espelho.
A cada manhã, mirava no vidro polido
E este escolhia a face do dia.
Sorridente, séria, sóbria, braba...
Esquecera-se de como poderia querer
Ser o seu próprio reflexo.
Pior,
Acostumara-se com a praticidade
Do pronto e acabado.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

VITÓRIAS?

Escrevo com a tinta verde
Que extraio dos teus olhos.
Tua proximidade
Arromba minhas trancas.
Coloco-me nua na tua mesa.
Entrego-me aos teus sonhos e caprichos.
Sou curiosa.
Quero ver se existem vencedores.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

PLANO

Ao vê-lo,
Curiosa, escorregava 
Pelas entrelinhas.
Em meio a arabesques
Dançava por espaços vagos
Da sua respiração.
Queria que ele a notasse,
Assim, de mansinho.
E, sem perceber,
Se entregasse, sonolento,
Aos seus mais delicados 
E mundanos
Caprichos.

domingo, 17 de abril de 2016

ELA

Dos equipamentos da felicidade,
Tinha o sorriso.
Iluminava até os dias mais chuvosos.
A gargalhada era tão potente
Que era capaz de fazer cessar nevascas.
Debochada,
Fazia a vida correr atrás dela.
E, absurdamente escabelada,
Ela corria.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

SOPA

Fugiu da caixnha das expectativas
E apareceu, em forma de labareda,
Bem no meio da sala de jantar.
Assustados, aqueles que tomavam
Automaticamente a sopa fria e gordurosa
Dos tempos sem brilho,
Acovardaram-se diante da inusitada presença.
Perguntavam-se, entre parênteses, 
O que teria ocorrido de fato.
Subindo na mesa, no alto de seu salto 15,
Dançou por entre os pratos
Alcançando a vetusta cabeceira.
Sentou-se indecorosamente de pernas abertas
E, gritando falas desconexas,
Atingiu o orgasmo recolhido há tanto.
Exausta, sucumbiu ao vento forte,
Que a carregou para todo o sempre.
Ao fim de tão trágica cena,
Voltaram à mesa aqueles que dela
Nunca saíram, suspirando, entre aspas,
Os desejos rotos e inconfessáveis.
A sopa congelou.

terça-feira, 8 de março de 2016

ELA

Feita de rocha e fluidos
Era ora terra, ora ar.
Atingia todas as gamas de cores
E de sabores e,
Dependendo da ocasião,
Era todos simultaneamente.
Humores? Vários.
De acordo com a roupa 
E o tamanho do salto.
Lutava chorando,
Chorava sorrindo
Sorria lutando.
Cada dia vibrava em um tom,
Mas nunca perdia a melodia.
Incompleta eterna
Incomodava-se, ou não,
Com a completude ou falta dela.
Seguia a vida e deixava-se levar
Pelo vento
Pelo som
Pelo tudo
Pelo nada
Pelo simples prazer 
De ser quem é.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

ILUSÃO?

Inventou o sonho.
Despediu-se da realidade
Sem pestanejar.
Partiu por sua estrada cor de rosa
Rumo ao arco íris
Seguida pelo bando,
Alvoroçado,
De coloridas borboletas.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

OLHAR

O mar sentou-se para ouvi-la.
Exigiu silêncio às ondas.
Adormeceu os peixes e apagou o sol.
Ela, comovida com tanta atenção,
Iniciou sua fala de inseguranças.
Riu, chorou, ponderou.
Ao final da exposição,
O mar ergueu-se olhando-a nos olhos.
Ela confiava nele.
Deixou-se abraçar sem temor.
Desapareceu para todo seu sempre,
Na certeza do novo todo prometido
Na luz daquele olhar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

TARDE

Era verão e chovia.
A nostalgia invadiu-a pelas narinas.
O atrito dos corpos foi relembrado pela pele.
A lingua reviveu o sabor do suor
Sorvido no lúdico passeio pelo corpo.
Rostos tensos e absortos
Pela busca do prazer total
Voltaram como flashs sombrios.
Concentração no ritmo.
Mistério coberto de névoas e sensações.
A tarde anoiteceu cúmplice dos instantes.
Os instantes anoiteceram na alma
Na esperança de aflorarem mais uma vez
Em uma nova tarde...
Será tarde?

domingo, 7 de fevereiro de 2016

PROTEÇÃO

Do guarda-chuva amarelo
Caíram corações coloridos.
Animou-se para enfrentar a tempestade
Cinzenta.

domingo, 24 de janeiro de 2016

EGOÍSTA

Mantinha a alma prisioneira
No corpo remendado.
A cada impacto, 
Apressava-se a cerzir, costurar, remendar.
Tinha pavor da ideia de perdê-la,
Sabia que seria para sempre.
Não aguentaria seguir sem ela.
A tristeza que se impingia
Só teria sentido
Com o sofrimento dela também.

domingo, 17 de janeiro de 2016

IMAGEM

Tinha um balão cheio de si.
Ali guardava seus sonhos, desejos,
Angústias e desilusões.
Desfilava, todos os dias,
Na frente de todos,
Com ele, grande, inflado, colorido,
Flutuando sob sua cabeça
Preso apenas pelo fino
Cordão dourado.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

ENIGMA

O problema.
Não podia viver sem ele.
Qualquer solução,
Alguma solução,
Uma tentativa de solução,
A solução,
Não serviam,
Não conseguiria viver sem
O problema.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

IMPERTINÊNCIAS

Passados impertinentes
Andam sozinhos nas ruas
Desafiando o presente
Que os pensa além das luas.

Luas de suspiros,
Luas de muitos ais,
Luas de aguaceiros
De tardes quentes demais.

Muitos anos se passaram
E a sensação retorna fresca,
Como foi doce o momento
De intensidade gigantesca.

Um jovem, pele macia,
Uma mulher, plena e intensa,
Colorida lembrança
Deixa respiração suspensa.

Passado vai e passa,
Com tamanha desfaçatez
Sorri, com desdém, e sai
Quer toda cena outra vez!

domingo, 20 de dezembro de 2015

JURA

Estava lotada de cansaços.
Ansiava viver do seu modo,
Mas, quando menos percebia,
Esforçava-se a agradar os outros.
E os outros?
Nunca se contentavam, é claro.
Um dia virou nuvem 
E, disfarçada de vento,
Fugiu para atrás da colina.
Que se contentassem, ou não,
Sozinhos.
Estava farta!
Nada mais iria lhe atrapalhar!
Jurou a si própria!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

INCOMPREENSÃO

Incompreendia a incompreensão
De todos acerca de sua pessoa.
Era clara, transparente e volátil,
Mas perfeitamente táctil.
Falava, sempre da forma mais ponderada.
Palavras, ainda que não unívocas,
Possuíam significados bem delimitados
Capazes de apaziguar a tormenta.
Sabia de seus dotes com a certeza dos céticos.
Incompreendia a incompreensão 
De todos acerca de sua pessoa.
Será que a clareza ofusca?
Será que o nevoeiro dos olhos alheios impede?
Incompreendia a incompreensão
De todos acerca de sua pessoa.

sábado, 12 de dezembro de 2015

PRESA

Pertencia.
Almejava pertencer
A si própria,
Mas pelo visto,
A carta de alforria
Iria tardar.
Enquanto esperava,
Tecia os dias, meses, anos...
Na esperança de que
Ao findar a rede
O prêmio final alcançasse...
Por ora seguia.
Pertencia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CONFIANTE

Olhava os lados negros das nuvens.
Carregadas de tempestades
A ameaçavam sem cessar.
Raios e trovões prenunciavam
Os acontecimentos.
Ventos repletos de areia e folhas
A impediam de ver com clareza
Não se intimidaria,
Na certeza de que havia um sol
Por detrás de tudo isso.
Dançou comemorando a caída
Das primeiras gotas de chuva.

sábado, 28 de novembro de 2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

BALÕES

Cercada por balões,
Disfarçafa-se de alegria.
O colorido, flutuante de gás hélio,
Impedia que suas lágrimas refletissem
No brilho do sol.
Queria ser a fantasia que criava.
Desejava que a transmutação
Impusesse-se de fora para dentro.
Tentava, com frenesi,
A mudança exógena.
Uma hora aconteceria, confiava.
Seguiu no choro,
Abrilhantado pelo sorriso
De que tudo começaria a mudar,
Em breve, muito em breve.

sábado, 21 de novembro de 2015

BLARGH!

Entre o belo e o feio,
Sentiu-se normal.
Entre o magro e o gordo,
Imaginou-se média.
Entre o ardente e o frígido,
Viu-se morna.
Entre o explosivo e o apático,
Entendeu-se controlada.
Era a personificação
Do meio-termo.
Insuportável!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SAUDADE

Do canto distante
Ouvia risadas do passado.
Em um túnel caleidoscópio
Decidiu fugir do real.
Embretada na floresta de sonhos
Pisava, levemente,
Sobre o chão de folhas secas.
O perfume da chuva, a anunciava.
Na antiga clareira, 
Ao pé da grande árvore sentou-se,
Como sempre o fizera.
Sentiu-se acolhida pelo infinito.
O amor ainda estava materializado ali,
Forte e fresco.
Acalentada pelo tempo,
Chorou a saudade 
Que ia partir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

BATIDAS

Na forma de um véu
Deslocou-se sobre o oceano
Na esperança de vê-lo.
Durante o percurso,
Recolheu pequenos mimos.
Uma gota do mar aqui, um perfume do vento ali.
Ia determinada a encontrá-lo,
Houvesse o que houvesse.
Voou dias escaldantes 
E noites frias.
Viu luzes e escuridão.
Guiava-se apenas pelo som do coração dele
Ainda preso aos seus ouvidos.
Muito tempo depois chegou à praia.
Cansada, feliz, em êxtase.
Onde ele estaria?
Ansiosa, transmutou-se novamente em mulher.
Andou por todos os cantos e adormeceu
Na areia cálida.
Ele chegaria em breve.
Sim, ele chegaria,
Ouvia as batidas cada vez mais próximas...

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

JOGO

Um dia, os sonhos curiosos
Vieram espiar a realidade.
Divertiam-se com seus tropeços,
Terrestres e falhos.
Pairavam fugazes no cenário bifronte:
Etéreo na parte superior 
E sólido junto a base.
A realidade, 
Percebendo-os de canto de olho,
Ansiava alcançá-los, 
Quando menos esperassem,
Assim fazia-se de tonta,
Totalmente alheia à situação.
Não tolerando tamanho desdém,
Alguns sonhos, mais afoitos,
Arriscavam-se em rasantes
Momento em que restavam 
Eternamente capturados.
E, neste jogo de forças,
A vida seguia...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

HISTORINHA

A difícil arte de sentar à janela e ver o tempo passar, exercia com perfeição. Ora atrás das cortinas, ora à frente, brincava de luzes e sombras com os minutos e horas. Divertia-se quando o tempo sentia suas ausências, enciumava-se, quando desprezava suas presenças. Admirava-o, sobretudo. Altivo e imponente, capitaneando ventos, sois, chuvas, vidas e mortes. Este, por sua vez, sabia que somente ela o conhecia com requintes de detalhes. Certo dia, parou o mundo para que ela saísse de seu posto e desaparecesse sob seu manto. Melhor tê-la por perto. Melhor assim... E a janela? Bem, a janela nunca se conformou...

sábado, 7 de novembro de 2015

REALIZADA

Pequena, ínfima, minúscula....
Imperceptível, como sempre
Ansiara ser.
É.

DIFICULDADES

Sentia-se vestindo a capa
Encharcada de lágrimas estocadas.
O pesado abrigo causava-lhe 
O frio sombrio do intenso inverno.
Difícil andar, difícil ficar.
Difícil ficar, difícil andar.
Difícil...

domingo, 19 de julho de 2015

LIMPEZA

No raio do olhar
Lançou o dardo mágico.
Imediatamente, 
Após ultrapassar a retina,
Partiu em direção ao peito
Devastando tudo que encontrava
Pela frente.
Instalado, perigosamente nas entranhas
Começou a consumi-las
Como se um cupim ávido fosse,
Não deixando qualquer vestígio
Do que outrora ali havia habitado.
Tarefa concluída, auto-explodiu-se,
Em milionésimas partículas adstringentes,
Que fecharam-lhe todos os poros.
Refeita do fim, partiu ao início,
Limpa e nova para começar
O novo acúmulo,
Das sempre difíceis,
Futuras lembranças.